História e fundadores

A história da Camerata Antiqua de Curitiba contada por Aparecida Vaz da Silva Bahls – Historiadora e Pesquisadora da Casa da Memória/Diretoria do Patrimônio Cultural.

Era janeiro de 1974. Curitiba voltava a sediar os célebres Festivais de Música e os Cursos Internacionais, após uma ausência de quatro anos. Nas escolas, teatros e igrejas, acordes melodiosos de Monteverdi, Bach e Händel encantavam a todos. Para o encerramento, a cravista Ingrid Müller Seraphim e o maestro carioca Roberto de Regina, professores de música antiga, organizaram um concerto com seus alunos na Igreja do Cabral. O sucesso obtido com a apresentação despertou, nos alunos e na plateia, o desejo de prolongar aqueles momentos o ano todo. Assim, Asta e Ilsa Scheidt, alunas de canto do Festival, depois de contatos com diversas instituições culturais chegaram à Fundação Cultural de Curitiba/FCC, recém-criada, sendo que seu presidente, Alfred Willer, manifestou interesse pelo projeto. A boa notícia foi levada a Ingrid Seraphim que então solicitou, oficialmente, auxílio à FCC. A partir dessa época, a Instituição assumiu os gastos com partituras, produção e divulgação de concertos e com a vinda do maestro Roberto de Regina para Curitiba, para reger o pioneiro ensemble artístico da capital.

Com a criação da Camerata Antiqua de Curitiba/CAC, em 1974, idealizada, segundo regimento de 24 de março daquele ano, para pesquisar e divulgar música antiga, iniciava-se profícua parceria que perdura até hoje. Além de cravista, Ingrid Seraphim coordenava e fazia a preparação musical do conjunto que, desde seu início, era formado por seleto grupo de musicistas. Ingrid e Roberto de Regina, hoje maestro emérito da Camerata, são considerados os fundadores do grupo.  Pouco depois, em 24 de junho de 1974, a Fundação Cultural abriu as portas do Teatro Paiol para a Camerata se apresentar para convidados. No ano seguinte, o grupo gravou seu primeiro disco, pela FCC – Dietrich Buxtehude e Outros. O segundo disco, La NoceChampetre, viria anos mais tarde.

Paulatinamente, os concertos se estenderam para outras cidades. Na época, não havia um local próprio para os ensaios, que ocorriam tanto na casa de Ingrid Seraphim como na da família Brandão, cujos membros integravam o conjunto. No final da década de 1970, a FCC ofereceu ao ensemble artístico, um imóvel que fora sede do quartel do Exército, o Solar do Barão, ocupado pelo grupo enquanto era restaurado, no início dos anos 1980. O Solar se tornou, assim, por muitos anos, a sede da Camerata. Nesse período, ocorreram mudanças na direção. Até então, regida somente por Roberto de Regina, a Camerata passou a receber maestros convidados. Contratações também ocorreram, como a do violinista carioca Paulo Bosísio, que, designado para trabalhar com a Orquestra de Cordas, passou a destacar, no grupo, o repertório da música brasileira. Com a sua saída, em 1986, assumiu o maestro paulista Jamil Maluf. No mesmo ano, o cargo de regente foi ocupado por outro maestro paulista, Lutero Rodrigues, cujo trabalho perdurou por doze anos. Por certo tempo ele regeu, também, o Coro da Camerata, depois reassumido por Roberto de Regina.

A evolução técnica e musical do Coro e da Orquestra possibilitou a formação, em 1989, da Orquestra de Câmara da Cidade de Curitiba. Desde então, os dois grupos passaram a se apresentar ora em conjunto, ora em paralelo. Ao longo de seus 45 anos de existência, celebrados em 2019, a Camerata se transformou em um dos ícones musicais da capital. A proposta inicial de execução exclusiva de música barroca e renascentista foi enriquecida com repertório de compositores contemporâneos, nacionais e estrangeiros. Importantes programas sociais marcaram sua trajetória, como Música pela Vida, Alimentando com Música, Curitiba Abraça o Paraná, além de vários concertos nacionais e internacionais, como a apresentação do grupo em 1995, no concerto comemorativo do aniversário da cidade de Assunção, Paraguai, no Centro Cultural Paraguai – Japão. Em 1996, estão os concertos em Washington, a convite do Banco Interamericano de Desenvolvimento, realizados em sua sede, como também na Embaixada do Brasil e na Epiphany Church.

No Brasil, em 22 de abril do ano de 2000, a Camerata Antiqua de Curitiba participou das comemorações dos 500 anos da descoberta do país, em Porto Seguro, Bahia, nas quais estiveram presentes os presidentes do Brasil e de Portugal. Mantida pela FCC e administrada, desde 2004, pelo Instituto Curitiba de Arte e Cultura/ICAC, a trajetória de sucesso da Camerata se explica pelo empenho de seus integrantes no contínuo aperfeiçoamento musical, garantia também, de carreiras individuais e da conquista de prêmios e prestígio, no Brasil e no exterior. Seguindo o caminho de modernização trilhado por orquestras de todo o mundo, a FCC implantou ações como a ampliação do número de integrantes do grupo e a construção de parcerias; acima de tudo, investiu na restauração da Capela Santa Maria, transformando-a em importante espaço cultural e, desde 2008, sede oficial da Camerata, com salas de concerto e ensaios. Para aperfeiçoar seu funcionamento, a Camerata instituiu um Conselho Artístico, formado por músicos representantes do grupo, responsável pela elaboração da programação oficial das temporadas anuais, para a qual são convidados renomados regentes e solistas nacionais e internacionais. Após quatro décadas de atuação, a Camerata Antiqua de Curitiba tem seu trabalho registrado em oito discos (long plays) e seis CDs, com um repertório de composições dos grandes nomes da música erudita universal. Um legado para a cultura musical brasileira.

MÚSICOS FUNDADORES:

ROBERTO DE REGINA (Rio de Janeiro, Brasil, 1927)
Fundador da Camerata Antiqua de Curitiba e Maestro Emérito

Roberto de Regina 1 (1)

Roberto de Regina estudou música antiga com membros da Pró-Música de Nova York, regência coral com Robert Shaw e construção de cravo com Frank Hubbard. Fundou os grupos de música antiga: Coral Bach do Teatro do Estudante, Coral Bach de O Tablado, Coro de Câmara Dante Martinez, Conjunto Roberto de Regina e a Camerata Antiqua de Curitiba. Roberto de Regina é o responsável pela construção do primeiro cravo brasileiro e pela gravação dos dois primeiros discos de cravo e música antiga no país. Embora seja amplamente reconhecido como um dos maiores cravistas do Brasil, com 26 álbuns e 5 DVDs gravados, Roberto de Regina possui ainda outras facetas menos divulgadas: é médico anestesista, profissão que exerceu durante anos paralelamente à música, e também um exímio artesão. Sua coleção de miniaturas, reunidas desde a infância, está exposta para visitação pública agendada no Museu Ronaldo Ribeiro, localizado no Sítio São Pedro, sua própria residência, em Guaratiba, na Zona Oeste do Rio de Janeiro. O local também é conhecido como Capela Magdalena, uma sala de concertos construída por ele, onde tem uma agenda de concertos e executa a música do período barroco num magnífico cravo, cópia fiel de um instrumento do século XVIII. No Museu, boa parte das miniaturas é confeccionada pelo próprio músico. Destaques da coleção: maquete de uma cidade europeia fictícia, com teatros, cinemas, igrejas e bondes; automóveis antigos e aviões (inclusive o 14 Bis de Santos Dumont e a Kitty Hawk dos Irmãos Wright); embarcações como a Barca do Sol (usada no funeral do faraó Quéops, em 4500 A.C.) e a esquadra de Pedro Álvares Cabral; catedrais e castelos como o Krak des Chevaliers, localizado na Síria. Em 2017, no Rio de Janeiro, lançou seu livro Roberto de Regina Vida e Obra ou Memórias de um Sargento de Malícias pela Editora Artes e Textos. Curitiba, 2016.


INGRID MÜLLER SERAPHIM (Curitiba, Brasil, 1930)
Fundadora da Camerata Antiqua de Curitiba

Ingrid Müller Seraphim 2

Ingrid Müller Seraphim, no decorrer da sua trajetória, dedicou-se ao piano, cravo e ao órgão, além de desempenhar importante papel como organizadora cultural. Professora da Escola de Música e Belas Artes do Paraná, hoje, Universidade Estadual do Paraná, lecionou piano, cravo e música barroca, deflagrando o movimento de música antiga no Estado. Atuou intensamente em concertos, gravações e na organização de cursos e festivais reconhecidos nacional e internacionalmente. Entre as suas mais importantes ações estão a criação e a coordenação da Camerata Antiqua de Curitiba (1974), Coro da Camerata Antiqua de Curitiba (1974), Orquestra de Câmara da Cidade de Curitiba (1985), e das Oficinas de Música de Curitiba (1983) que são desde a sua criação mantidos pela Prefeitura Municipal de Curitiba através da Fundação Cultural de Curitiba, e gerenciados desde 2004 pelo Instituto Curitiba de Arte e Cultura. Como pianista, dedicou-se especialmente a Debussy; e como cravista e organista, a Rameau, Bach e Händel. Como reconhecimento maior por sua contribuição à cultura do país, recebeu entre outros prêmios, a Ordem do Pinheiro do Paraná em 2013 e as insígnias da Ordem do Rio Branco, das mãos do Presidente da República (Brasília, 2000). Em 2015, lançou o CD Música Francesa para Cravo e Piano com obras de Rameau, Couperin, Debussy e Ravel.